Foto: Gio Puer @giovanepuer
Vinícolas perto de Santiago: qual experiência combina com você.
Uma das perguntas que mais escuto de quem está organizando uma viagem ao Chile é: qual vinícola conhecer perto de Santiago?
Quanto mais vinícolas conheço no Chile, menos acredito que exista uma resposta única para ela. Dois vinhedos podem estar no mesmo vale, bem perto um do outro, e entregar experiências completamente diferentes. Algumas te conquistam pela história, outras pela beleza, pela paisagem, pelo formato do tour, pela forma como recebem ou simplesmente pelo momento que você está vivendo ali.
Por isso, antes de perguntar qual é a melhor vinícola, eu começaria por outra pergunta:
Que experiência você quer viver?
É sua primeira viagem ao Chile? Nunca entrou em uma vinícola? Você gosta de história? Quer uma experiência mais clássica? Prefere algo ligado à paisagem e ao pôr do sol? Você conhece de vinhos?
Quando entendemos isso, escolher fica mais interessante e mais fácil também.
Se é sua primeira vez, começar por uma clássica pode fazer sentido
Para quem nunca visitou uma vinícola e está vindo ao Chile por primeira vez, os nomes Concha y Toro e Undurraga costumam aparecer primeiro, naturalmente. E tem uma razão pra ser.
São os vinhedos tradicionais, com operação turística em quase todas as agências de passeio, além de uma narrativa que ajuda quem está chegando agora a entender um pouco desse universo.
A Concha y Toro é a mais conhecida para muitos brasileiros, e provavelmente o primeiro nome de vinho chileno que já existia no imaginário antes mesmo da viagem. Muita gente chega querendo conhecer simplesmente porque já conhece a marca.
Só que reduzir a Concha y Toro à fama seria pouco.
Dentro da própria propriedade existem experiências bastante diferentes. Te, o tour mais básico e clássico, a experiência Marqués de Casa Concha, com uma proposta mais aprofundada em vinhos e também experiências noturnas mais lúdicas e cenográficas, com uma espécie de "teatro" e jantar.
Então, nem mesmo escolher a vinícola encerra a decisão. Você também precisa escolher como vai conhecê-la.
A Undurraga, por outro lado, representa muito bem aquela imagem clássica de uma vinícola chilena: jardins, vinhedos, história, bodegas e uma visita que ajuda a apresentar o Valle del Maipo para quem está começando.
Para uma primeira experiência, essa leitura mais tradicional pode funcionar muito bem.
Santa Rita: quando conhecer uma vinícola também significa conhecer a história do Chile
A Santa Rita ocupa outro lugar para mim.
Ali, o vinho divide espaço com patrimônio, arquitetura e história.
A propriedade tem jardins, construções históricas, antigas bodegas, o Museu Andino e a famosa Bodega de los 120 Patriotas, relacionada ao período da Independência chilena.
É uma dessas visitas em que gosto de prestar atenção no que existe além do produto.
Porque quando um lugar consegue contar bem sua própria história, ele deixa de ser apenas bonito e passa a ter contexto.
Na Santa Rita, você pode chegar interessado em uma vinícola e sair sabendo um pouco mais sobre o Chile.
E isso, para mim, muda completamente o peso de uma experiência.
Cousiño Macul: uma vinícola histórica quase dentro da cidade
A Cousiño Macul, em Peñalolén, tem uma característica que sempre acho interessante explicar: você praticamente não precisa sair de Santiago para mudar completamente de cenário.
De repente, a cidade fica para trás e aparecem vinhedos, jardins, construções históricas e a Cordilheira no fundo a paisagem. Você consegue ver até o Costanera Center de dentro da propriedade. E ainda tem passeio de bicicleta pelas parreiras.
Além disso, existe toda a história da família Cousiño e de Isidora Goyenechea, (sou fascinada na história dessa mulher) uma das figuras femininas mais importantes da história empresarial chilena do século XIX.
É exatamente o tipo de lugar que mostra como o enoturismo pode ir muito além de uma visita técnica.
Ali entram família, patrimônio, arquitetura, história econômica e transformação da própria cidade.
Alyan: quando o pôr do sol é parte forte da experiência
A Alyan Family Wines, em Pirque, trabalha com outra lógica.
Seu Sunset ficou muito conhecido entre brasileiros porque transforma o final da tarde em parte central da experiência.
Existe um percurso pela propriedade, enquanto degusta os vinhos e tem tempo.
Tempo para permanecer, olhar, conversar, acompanhar a luz mudando e esperar o sol baixar atrás da paisagem.
E isso é algo que aprendi a observar muito quando visito experiências turísticas: quanto tempo o lugar permite que você realmente esteja nele?
Na Alyan, o pôr do sol ajuda a construir a memória da visita regada a bastante vinho.
Talvez seja justamente por isso que essa experiência tenha ganhado tanta força entre os brasileiros. Ela não vende apenas a ideia de “conhecer uma vinícola”. Ela vende uma tarde inteira vivida ali.
Tarapacá: quando a propriedade já começa a contar a história antes da visita
A Viña Tarapacá, em Isla de Maipo, trabalha em outra escala.
É uma propriedade grande, histórica e visualmente muito impactante.
Tarapacá tem essa força de paisagem, arquitetura, natureza e dimensão fazendo parte da experiência desde a chegada.
É o tipo de vinícola que pode interessar especialmente a quem valoriza lugares que têm impacto visual e sensação de força, não apenas uma visita guiada. Também com uma história familiar bem importante, que tem a ver com o nome de um presidente do Chile.
El Principal: quando o território começa a explicar o vinho
A El Principal, também na região de Pirque, entra num ponto que começa a ficar cada vez mais interessante conforme você conhece mais vinícolas.
É uma vinícola que considero especialmente interessante para quem já teve contato com outras e começa a querer entender o lugar por trás da produção. Ela tem um deck no alto da colina, onde fazem um churrasco chileno, que tem uma vista linda e um clima bem diferente das outras vinícolas.
Você percebe chega um momento em que “qual é o vinho?” deixa de ser a única pergunta interessante.
E quando saímos do Maipo, a experiência muda novamente
Outra coisa que vale entender é que falar de vinícolas perto de Santiago não significa falar apenas do Valle del Maipo.
Seguindo em direção ao litoral está o Valle de Casablanca, e aí o mapa muda outra vez.
Muda o clima, muda a paisagem, muda a influência marítima e mudam também os tipos de propriedades que encontramos.
E é justamente isso que torna o enoturismo chileno tão interessante: você não precisa percorrer distâncias absurdas para começar a perceber territórios muito diferentes.
Villard: quando a escala menor muda a relação com a visita
A Villard Fine Wines, fundada por Thierry Villard em 1989, foi pioneira no conceito de vinícola boutique familiar no Chile.
E conhecer uma propriedade menor depois de visitar grandes operações é quase trocar a lente da câmera.
A escala muda, a narrativa familiar aparece mais. E a sensação de proximidade também.
Não significa que uma experiência seja superior à outra. Significa apenas que elas contam histórias diferentes.
E, para mim, é justamente essa diversidade que vale descobrir.
Viñamar: quando Casablanca ganha outra linguagem
Também em Casablanca está a Viñamar, com uma identidade muito ligada aos espumantes e à experiência da Casa Viñamar.
Arquitetura, gastronomia e paisagem ajudam a construir uma visita que novamente foge daquele modelo único de “tour de vinícola”.
E é aqui que a pergunta inicial deste texto começa a fazer ainda mais sentido.
Se Santa Rita entrega história, Alyan trabalha o sunset, El Principal aprofunda o território e uma boutique familiar oferece outra escala de relacionamento, então talvez perguntar simplesmente “qual vinícola é melhor ” seja pouco.
Quanto mais vinícolas conheço, menos acredito em ranking
Tem quem queira conhecer a Concha y Toro justamente porque sempre ouviu falar dela.
Quem prefere uma experiência mais histórica pode se apaixonar pela Santa Rita.
Quem quer passar a tarde olhando a Cordilheira pode buscar outra proposta.
Quem gosta de arquitetura vai observar coisas que outra pessoa talvez nem perceba.
Quem já conheceu várias vinícolas provavelmente começará a procurar experiências menos óbvias, propriedades menores ou um entendimento mais profundo sobre território.
E é exatamente por isso que eu prefiro curadoria a ranking.
Costumo dizer que não sou especialista em vinho, mas entendo de experiências e de gente.
E talvez esse seja o meu jeito de olhar para esses lugares.
Quando entrar em uma vinícola, observe o vinho, claro, mas observe também como você é recebido, como a história é contada, o quanto existe de verdade naquele discurso, como o espaço foi pensado, se o território aparece, se a paisagem participa e se existe alguma coisa ali que continue com você depois que a visita termina.
Porque uma grande experiência consegue apresentar também um pedaço do Chile.