Foto: Thati Lira
Villard Fine Wines: vinho, família e a elegância de receber
Conheci Thierry Villard e Paulina Feller em um almoço harmonizado na Villard Fine Wines, em Casablanca. Uma história de família, vinho e hospitalidade.
Eu já visitei muitas vinícolas no Chile e talvez por isso minha curiosidade tenha mudado e a Villard Fine Wines me ganhou
Hoje, antes de perguntar quantos hectares uma vinícola tem, quantos rótulos produz ou quantos pontos recebeu determinado vinho, me interessa outra coisa:
quem construiu tudo aquilo?
Na Villard Fine Wines, essa pergunta faz especialmente sentido.
Fui até Casablanca para um almoço harmonizado e não fiz o tour tradicional da vinícola. Quero deixar isso claro desde o começo, porque gosto de escrever sobre aquilo que realmente vivi.
Mas talvez justamente por isso minha experiência tenha seguido outro caminho.
Conheci Thierry Villard e Paulina Feller, conversei com os dois, almocei ali e comecei a entender por que a palavra “familiar”, tão repetida no mundo do vinho, tem um peso diferente nesse lugar.
A Villard se apresenta como a primeira vinícola boutique familiar premium do Chile, fundada em 1989, quando Casablanca ainda estava longe de ocupar o lugar que ocupa hoje no mapa do vinho chileno.
E a história começa muito antes da primeira garrafa.
Thierry Villard: uma vida de vinho antes da Villard existir

Thierry nasceu na França, cresceu principalmente na Suíça e também estudou na Inglaterra. Aos 19 anos saiu de casa para conhecer o mundo.
Pouco depois estava na Austrália.
Depois decidiu seguir para a América do Sul, chegou ao Panamá de barco e desceu pelo continente até o Chile.
Foi aqui que conheceu Paulina.
Sete meses depois, os dois se casaram em Santiago. A cerimônia foi repetida em Paris e, em 1972, começou uma viagem que já parece roteiro de filme: compraram um Volkswagen Beetle e seguiram por terra até Kabul, no Afeganistão. Com o fechamento da fronteira entre Paquistão e Índia naquele período, venderam o carro e continuaram pela Ásia usando transporte público até chegar a Singapura, de onde embarcaram para a Austrália.
É uma história fascinante por si só. Mas também explica um pouco o perfil de Thierry.
Ele não chegou ao Chile como alguém que simplesmente decidiu “abrir uma vinícola”.
Antes disso, construiu uma carreira internacional no vinho.
Na Austrália, trabalhou na Orlando Wines, uma das grandes empresas do setor, passou pela Morris Wines e chegou a ocupar funções ligadas a marketing, exportação e desenvolvimento de mercados. A história oficial da Villard registra inclusive sua participação na primeira campanha internacional de mídia da Jacob’s Creek fora da Austrália.
Ao longo dos anos 1970 e 1980, Thierry e Paulina continuaram viajando ao Chile.
E foi observando a indústria local que ele começou a enxergar algo que, naquele momento, estava longe de ser evidente para todo mundo:
o vinho chileno tinha potencial para ganhar outro lugar no mercado internacional.
No fim de 1988, Thierry deixou a carreira construída na Austrália e voltou ao Chile com Paulina e os dois filhos. Antes de criar a própria vinícola, trabalhou como consultor de exportação para empresas como Concha y Toro e Emiliana, ajudando na abertura de mercados e no posicionamento internacional do vinho chileno.
Em 1989 nasceu a Villard Fine Wines.
E por que Casablanca?
Hoje parece uma escolha óbvia, mas naquela época, não era.
Casablanca está a cerca de 80 quilômetros de Santiago e relativamente próxima ao Pacífico. A influência marítima e da Corrente de Humboldt ajuda a manter temperaturas mais baixas, neblina matinal e condições especialmente favoráveis para variedades de clima frio. Hoje o vale é internacionalmente conhecido por Sauvignon Blanc, Chardonnay e Pinot Noir.
Mas no começo dos anos 1990 Casablanca ainda era um território vitivinícola em formação.
Poucos produtores estavam explorando seriamente seu potencial.
Thierry queria justamente trabalhar com brancos premium e Pinot Noir, uma variedade que ainda tinha presença muito pequena no Chile naquele momento. Para ele, Casablanca oferecia as condições climáticas certas para esse projeto.
Isso muda a leitura da Villard, porque ela não chegou depois que Casablanca se tornou famosa.
Ela participou daquela construção.
Paulina Feller: muito mais do que “a esposa do fundador”

Essa foi uma parte da pesquisa que gostei especialmente de aprofundar.
Porque seria muito fácil contar essa história inteira centrada em Thierry.
E isso seria incompleto.
A própria narrativa oficial da Villard mostra Paulina desde o início dessa aventura: ela estava com Thierry nas viagens, na vida construída na Austrália, no retorno ao Chile e na consolidação do projeto familiar. Hoje, segundo a própria família, Paulina acompanha a administração e a logística da empresa.
Ou seja, ela participa da estrutura que mantém essa história funcionando.
Tem ainda registros societários públicos mostrando Paulina como participante de empreendimentos ligados à família, inclusive à Tonelería Francesa de Chile.
Mas nenhuma dessas informações explica exatamente o que me encantou quando a conheci.
Isso só apareceu estando ali. Paulina é extremamente inteligente, simpática, elegante e tem uma fineza que não parece construída para receber visitantes.
Enquanto conversávamos sobre diferentes assuntos, ela ia cuidando das plantas na área externa.
Regava uma, ajeitava outra, continuava conversando, sem cerimônia.
Pode parecer uma cena banal, mas pra mim não foi.
Porque naquela hora ficou muito claro que aquele espaço não é apenas cenário de enoturismo.
Thierry e Paulina têm uma elegância muito particular
Os dois me chamaram atenção pela mesma razão. Não havia esforço para parecer importante.
E eles poderiam.
Thierry tem uma trajetória internacional enorme, participou da construção da imagem do vinho chileno no exterior e fundou uma vinícola num momento pioneiro para Casablanca.
Mesmo assim, a impressão que tive foi de um homem curioso, acessível, muito ligado àquilo que construiu.
Paulina tem aquela elegância rara que aparece mais na maneira de receber do que na maneira de se apresentar.
E os dois juntos ajudam a entender algo que a própria Villard afirma com muita clareza:
“não somos uma empresa que produz vinhos, somos uma vinícola familiar.”
Depois de conhecê-los, essa frase deixou de parecer posicionamento de marca.
Passou a fazer muito sentido.
A segunda geração não está apenas preservando o que recebeu
Outra coisa importante é que a Villard não ficou congelada na história dos fundadores.
Os filhos entraram na empresa.
Jean-Charles Villard, conhecido como Charlie, estudou Agronomia no Chile e depois Viticultura e Enologia em Bordeaux. Fez vindimas e experiências profissionais na Austrália, África do Sul, Bordeaux, Itália, Beaujolais e Borgonha antes de entrar definitivamente para a Villard em 2005. Hoje trabalha junto com a enóloga Anamaria Pacheco, que está na vinícola desde 1997. Thierry continua participando especialmente como referência nas decisões e nos blends finais. Villard
O outro filho, Sébastien Villard, está ligado à Tonelería Francesa de Chile, negócio que nasceu da relação de Thierry com a histórica tanoaria francesa Nadalié.
Isso é interessante porque mostra que a continuidade familiar não significa simplesmente repetir o projeto do pai.
Cada geração foi ocupando um lugar diferente dentro do ecossistema.
A história das barricas merece atenção
Esse talvez seja um dos detalhes mais interessantes da Villard.
Paralelamente à vinícola, Thierry passou a representar a tanoaria francesa Nadalié e posteriormente foi criada no Chile uma operação conjunta para produção de barricas.
A relação permitiu trabalhar de forma muito próxima com seleção de carvalho e desenvolvimento de barricas específicas para os vinhos da casa. Hoje, a Villard destaca que seus vinhos passam por barricas desenhadas especialmente e produzidas por sua própria tanoaria.
Isso não é apenas um detalhe bonito para contar durante a visita.
Barrica é parte importante das decisões de estilo de muitos vinhos.
Ter essa proximidade entre vinho e tanoaria ajuda a entender por que a Villard trata esse elemento como parte de sua identidade.
Minha Villard começou pela mesa






Eu não conheci a vinícola caminhando pela sala de barricas, conheci pela gastronomia.
Fui para um almoço harmonizado de três tempos, pra comemorar o aniversário de uma grande amiga.
E gostei muito dessa porta de entrada.
O restaurante Chez Villard trabalha a experiência a partir dos próprios vinhos. A proposta atual da casa combina gastronomia e enologia, com ingredientes da região e menus pensados para harmonização. A vinícola oferece hoje tanto serviço à la carte mediante reserva quanto experiências estruturadas de vinho e comida. Villard
E para mim existe uma diferença importante entre:
servir comida numa vinícola e pensar a comida a partir do vinho.
Na Villard senti muito mais a segunda coisa.
O espaço também conta a história






Gostei muito da área externa.
Do restaurante, do bar, dos detalhes.
Mas não porque exista ali uma estética ostensivamente luxuosa.
É justamente o contrário. Tudo me pareceu elegante sem esforço excessivo.
Bonito sem parecer montado exclusivamente para fotografia.
E esse equilíbrio é difícil. Tem vinícolas que trabalham magnificamente o espetáculo.
A Villard, pelo menos na experiência que tive, me pareceu apostar em outra coisa:
proximidade.
Talvez por isso aquela imagem da Paulina cuidando das plantas tenha ficado comigo.
Ela resume muito da sensação que tive.
Boutique, aqui, precisa ser entendida direito
“Boutique” virou uma palavra perigosa.
Hoje aparece em hotel, agência, restaurante, loja, perfume, café e provavelmente em algum pet shop particularmente confiante.
No vinho, porém, o conceito pode dizer algo importante sobre escala, produção e modelo de negócio.
A Villard se apresenta como a primeira vinícola boutique familiar premium do Chile, fundada em 1989. É importante manter essa formulação como uma afirmação da própria vinícola, e não tratá-la como um título oficial concedido por algum órgão externo.
No caso da Villard, a ideia de boutique aparece principalmente na combinação de:
produção de alta gama, escala familiar, participação direta dos proprietários, continuidade entre gerações,
e foco em identidade própria.
Isso é bem mais interessante do que usar “boutique” apenas como sinônimo de pequeno e caro.
E os vinhos?
A Villard trabalha hoje diferentes linhas, incluindo seus Grand Vin, os vinhos naturais JCV e os rótulos ícones Tanagra e Arganat, além de variedades como Chardonnay, Pinot Noir, Syrah, Sauvignon Blanc, Semillón, Carignan, Grenache e Pinot Grigio/Ramato. Villard
Tanagra é um dos rótulos mais emblemáticos da casa e aparece frequentemente nas experiências superiores de degustação. A vinícola também mantém um histórico extenso de avaliações internacionais para diferentes safras e rótulos.
Mas eu não transformaria este texto numa ficha técnica.
Porque meu interesse na Villard não começou em notas de degustação.
Começou nas pessoas.
O que é possível fazer hoje na Villard
Atualmente a vinícola oferece diferentes formatos de visita: tour pela bodega e sala de barricas, degustações, experiências privadas, menus harmonizados e até tour conduzido pelos próprios donos, dependendo da disponibilidade. Há também experiências para crianças, com degustação de sucos de uva e menu infantil, algo pouco comum entre as propostas de enoturismo.
Em setembro de 2026, o enoturismo funciona de quarta a domingo, e o restaurante informa funcionamento de terça a domingo. Como horários, valores e experiências podem mudar, eu confirmaria sempre diretamente com a vinícola antes de ir.
Casablanca fica a aproximadamente uma hora de Santiago pela Ruta 68. Para quem pretende degustar vinho, a recomendação oficial de turismo do Chile é contratar transporte/tour ou definir um motorista que não vá beber.
Para quem eu indicaria a Villard Fine Wine

Não acho que exista uma vinícola universalmente “melhor”.
Cada vez tenho mais resistência a essa ideia.
A Villard faz especialmente sentido para quem procura:
uma experiência mais íntima, familiar e gastronômica.
Para quem gosta de conhecer as pessoas por trás do vinho.
Para quem já visitou grandes vinícolas e quer experimentar outra escala.
Para quem valoriza história.
E também para quem entende que sofisticação não precisa aparecer na forma de excesso.
Quero voltar
E isso talvez seja o melhor resumo da visita.
Quero voltar na primavera, quando as parreiras estiverem verdes e a paisagem estiver em outro momento.
Quero fazer o tour que não fiz.
Quero entender melhor a bodega, a sala de barricas e os vinhos.
Porque minha primeira visita deixou algumas respostas.
E várias perguntas. É exatamente o tipo de lugar que eu gosto.
O que ficou comigo depois da Villard Fine Wines

Eu fui até Casablanca esperando conhecer uma vinícola.
Saí pensando numa família.
Num francês que atravessou continentes antes de apostar no vinho chileno.
Numa chilena que esteve ao lado dele desde o começo dessa história e que, décadas depois, eu encontrei conversando conosco enquanto cuidava das plantas com uma elegância absurda.
Nos filhos que continuaram o projeto por caminhos próprios.
Numa região que hoje é famosa, mas que ainda estava tentando provar seu potencial quando a Villard nasceu.
E numa ideia de hospitalidade que não depende de nenhuma performance.
Às vezes, a experiência mais sofisticada é justamente aquela que não parece estar tentando provar que é sofisticada.
Na Villard, foi exatamente essa sensação que ficou.
