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O que não fazer no Chile: hábitos que podem causar estranhamento por aqui Foto: Nataly Motta @natalymotta
É de bom tom

O que não fazer no Chile: hábitos que podem causar estranhamento por aqui

Pequenos códigos de comportamento que ajudam a entender melhor o Chile e evitam confundir diferença cultural com falta de simpatia.

Thati Lira 25 de set de 2026 6 min de leitura

Viajar para outro país não exige decorar um manual de etiqueta.

Mas exige uma coisa que considero muito mais interessante: observar.

Se você gosta de entender o destino além da logística da viagem, também escrevi sobre sete coisas que você só começa a entender quando conhece melhor o Chile.

Quando brasileiros e chilenos se encontram, a proximidade geográfica pode criar uma falsa impressão de que os códigos sociais serão praticamente os mesmos. Não são.

Depois de anos vivendo no Chile, aprendi que algumas situações que um brasileiro considera absolutamente normais podem ser percebidas de outra forma por aqui. E o contrário também acontece.

Não se trata de decidir qual cultura é mais educada, calorosa ou correta. Esse tipo de campeonato não leva ninguém muito longe.

Tem a ver com entender que simpatia, formalidade, intimidade e espaço pessoal não são expressos exatamente da mesma maneira em todos os países.

Então, se você está vindo ao Chile, estas são algumas coisas que eu observaria.

1. Não presuma intimidade antes que ela exista

O brasileiro costuma ter facilidade para reduzir distâncias rapidamente.

Conversa, brincadeira, apelido, toque, pergunta pessoal e certa informalidade podem aparecer logo no primeiro encontro.

No Chile, em muitos ambientes, especialmente profissionais ou com pessoas que você acabou de conhecer, a aproximação pode acontecer de maneira mais gradual.

Isso não significa falta de simpatia. É simplesmente outro ritmo de relação.

Eu gosto de começar observando como a outra pessoa se comunica e deixar a própria relação indicar até onde a informalidade pode chegar.

Intimidade não precisa ser antecipada para demonstrar gentileza ou que você é legal.

2. Cuidado com o volume

Essa talvez seja uma das diferenças mais simples de perceber quando se viaja em grupo.

O brasileiro tem uma relação bastante expansiva com conversa, risada, música e ocupação do espaço. Em muitos contextos isso é absolutamente natural pra nós.

Mas em restaurantes, hotéis, transportes, vinícolas, parques ou passeios compartilhados, vale prestar atenção ao ambiente antes de aumentar o volume.

Isso não é apenas uma impressão cultural minha. A orientação oficial de turismo responsável do Chile ( Chile Travel) pede explicitamente que visitantes respeitem o descanso e a experiência das outras pessoas, inclusive evitando gritos e música alta em espaços compartilhados e áreas naturais. 

Não precisa virar biblioteca.

Só perceber se a mesa ao lado precisa participar involuntariamente da sua conversa.

Alguns desses códigos ficam mais claros quando você vive aqui por mais tempo. Contei também [o que muda quando o Chile deixa de ser viagem e vira rotina].

3. Não transforme toda diferença em comparação com o Brasil

“Mas no Brasil…”

Essa frase é inevitável quando se mora ou viaja para outro país. Comparar é uma maneira natural de entender o desconhecido.

O problema começa quando toda descoberta precisa terminar numa competição. E posso falar? Fica frustrante pra nós, tá?! 

Já fiz muito isso e tenho que me policiar até hoje pra não continuar fazendo. rs

O atendimento é diferente. O café da manhã é diferente. Os horários são diferentes. A comida é diferente. A comunicação é diferente.

Nem toda diferença precisa produzir um vencedor.

Uma pergunta muito mais interessante é:

“Por que aqui funciona assim?”

Quando comecei a trocar comparação por curiosidade, passei a entender muito mais do Chile.

E essa mudança melhora qualquer viagem.

4. Não confunda reserva com antipatia

Esse ponto merece cuidado justamente porque generalizações culturais são perigosamente sedutoras.

Não existe “o chileno” como uma personalidade única.

Mas, determinados ambientes podem parecer mais formais ou reservados no primeiro contato do que muitos brasileiros estão acostumados.

Se você espera imediatamente o mesmo tipo de expansividade brasileira, pode interpretar distância como frieza.

Eu evitaria essa conclusão rápida. Dê tempo para a interação acontecer.

Às vezes não existe rejeição nenhuma. Existe apenas uma linguagem social diferente daquela que você reconhece mais facilmente.

(E as vezes existe a rejeição também, mas não se antecipe.)

5. Não trate tradição como cenário montado para turista

Fondas, cueca, festas religiosas, festas costumbristas, gastronomia regional e celebrações locais podem ser experiências lindíssimas para quem visita o Chile.

Mas elas existem antes da nossa câmera chegar. Amamos as fotos e vídeos.

Recomendo justamente que visitantes conheçam a cultura dos destinos, respeitem as comunidades locais e entendam que celebrações e tradições têm história e significado próprios. 

Fotografar, participar e se divertir fazem parte.

Mas existe uma diferença entre participar de uma cultura e consumi-la como decoração.

6. Não suponha que o jeito brasileiro de demonstrar simpatia será sempre entendido da mesma maneira

Brincar muito rápido, fazer piadas com alguém que acabou de conhecer ou falar com extrema informalidade pode funcionar maravilhosamente.

Ou não.

Aqui entra uma das habilidades que mais gosto quando viajo: ler a sala.

Observe como o anfitrião fala. Perceba o nível de formalidade.

Veja como as outras pessoas se comportam.

Não é preciso abandonar sua personalidade para viajar. Muito menos tentar “agir como chileno”.

A elegância está justamente em conseguir continuar sendo você sem presumir que todo ambiente precisa se adaptar imediatamente aos seus códigos.

7. E não confunda “tenho direito” com “posso fazer de qualquer jeito”

Esse ponto vale para restaurantes, hotéis, parques, vinícolas e experiências turísticas.

Você pagou e isso obviamente te dá direito ao serviço contratado.

Mas não transforma o destino, o trabalhador ou o espaço numa extensão particular da sua viagem.

Em áreas naturais, por exemplo, siga as normas locais, respeite o  patrimônio, não deixe resíduos e evite práticas que prejudiquem outras pessoas ou o ambiente. 

Parece óbvio. E deveria ser. Mas o óbvio precisa ser dito.

Algumas das regras mais importantes de convivência são justamente aquelas que parecem básicas até alguém decidir ignorá-las.

Afinal, é preciso mudar o jeito de ser para viajar ao Chile?

Claro que não.

E eu desconfiaria bastante de qualquer texto que tentasse ensinar alguém a “se comportar como chileno” em sete passos.

A riqueza de viajar está justamente no encontro entre pessoas diferentes.

O que vale levar é uma combinação bastante simples: curiosidade, atenção e leitura de ambiente.

Continue sendo brasileiro. Fale, pergunte, ria, experimente, participe. Eles adoram os brasileiros.

Só não chegue supondo que todos os códigos que funcionam na sua casa funcionam automaticamente na casa dos outros.

Para mim, essa é uma das partes mais interessantes de conhecer um país.

Você começa viajando para descobrir como os outros vivem.

E, sem perceber, acaba entendendo um pouco melhor como você vive também.

Leia também: Por que o Chile parece tão diferente do Brasil mesmo estando tão perto?

Leia também: O que reservar antes de viajar ao Chile e em que ordem organizar a viagem

Leia também: O que é a once chilena?

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