O que é a once chilena?
A once chilena é muito mais do que um café da tarde. Entenda o que se come, quando ela acontece e por que esse costume diz tanto sobre a vida cotidiana no Chile.
Once chilena ou "vamos tomar once" não significa simplesmente fazer um lanche no fim da tarde.
Para um brasileiro, a comparação mais imediata talvez seja com um café da tarde. Só que ela fica curta rápido.
A once chilena pode ter pão, palta, queijo, presunto, ovos, tomate, manteiga, geleia, doces, chá ou café. Em algumas casas, é leve. Em outras, praticamente substitui o jantar.
Mas o mais interessante talvez nem seja o que está sobre a mesa. É o papel que essa refeição ocupa na rotina.
A once chilena não é exatamente um café da tarde
A once costuma acontecer no fim da tarde ou início da noite e, tradicionalmente, funciona como um momento de pausa e encontro.
É comum encontrar marraqueta ou hallulla, acompanhadas de palta, queijo, cecinas, tomate, ovos, manteiga ou geleia. Chá é presença quase obrigatória em muitas mesas, embora café, leite ou mate também possam aparecer.
Doces, queques, tortas, sopaipillas e outras preparações variam conforme a casa, a região e a ocasião.
O Ministério das Culturas do Chile relaciona a consolidação da once à cultura do chá que se desenvolveu no país, enquanto pesquisas patrimoniais destacam seu papel como espaço de sociabilidade e construção de vínculos. (Ministério da Cultura)
É justamente aí que ela começa a se afastar da ideia brasileira de “tomar um cafezinho”.
A mesa pode ser simples, mas o momento é importante.
Em algumas casas, a once substitui o jantar
Esse é um ponto que costuma surpreender brasileiros.
A once não precisa acontecer antes de uma refeição completa à noite.
Em muitas famílias, ela é a última refeição do dia.
Isso ajuda a explicar por que pode ser bem mais reforçada do que aquilo que chamaríamos de lanche: bastante pão, diferentes acompanhamentos, ovos, frios, palta e, dependendo da casa, preparações ainda mais substanciosas.
A Universidade do Chile registra como os hábitos alimentares mudaram nas últimas décadas e como a once passou, em muitos lares, a ocupar o espaço da refeição noturna.
Por isso, se alguém te convidar para “tomar once”, talvez não seja uma boa ideia chegar depois de jantar.
E por que se chama “once”?
Aqui entra uma história divertida, mas também um pequeno cuidado.
A versão mais famosa diz que o nome viria de aguardiente, palavra que tem onze letras em espanhol. Segundo essa explicação, “tomar once” teria surgido como uma maneira discreta de se referir ao consumo da bebida.
O historiador Benjamín Vicuña Mackenna registrou essa versão no século XIX. Mas ela não é a única explicação existente.
O lexicógrafo Zorobabel Rodríguez já contestava essa origem no século XIX e defendia uma relação com o horário em que essa refeição era feita. O historiador Eugenio Pereira Salas também registrou outras hipóteses, incluindo uma possível influência da expressão inglesa the eleventh.
Então eu evitaria dizer que a história do aguardiente é “a origem comprovada”.
É melhor tratá-la pelo que ela é: a explicação mais popular para um nome no qual a origem é discutida.
O pão é quase protagonista

Falar de once sem falar de pão seria difícil.
Marraqueta, hallulla, pão amasado e outras variedades aparecem com frequência e viram base para todo tipo de acompanhamento.
Palta com pão é quase um idioma próprio por aqui.
Queijo, manteiga, tomate, ovos, presunto, patê e geleias também são comuns.
Na zona sul, a influência de imigrações europeias aparece em versões com kuchen, tortas, produtos lácteos e embutidos. A composição da once muda conforme território, tradição familiar e estação.
Ou seja, não existe uma única mesa de once “correta”.
Se você ainda se perde com alguns desses nomes, veja também Cardápio no Chile.
A once também explica um pouco da vida chilena
É por isso que eu acho esse costume tão interessante.
Para conhecer um país, às vezes vale prestar menos atenção às grandes cerimônias e mais àquilo que acontece todos os dias.
A once pertence a essa segunda categoria.
Ela fala de rotina, casa, pão, chá, conversa e convivência.
A antropóloga Sonia Montecino já destacou justamente essa dimensão social: convidar alguém para tomar once também significa construir um espaço de encontro.
Talvez seja por isso que traduzir simplesmente como “café da tarde” retire uma parte importante do significado.
É uma refeição, claro.
Mas também é uma pequena instituição doméstica chilena.
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Se te convidarem para tomar once
Vá esperando comida. Essa talvez seja a dica mais prática.
Pode ser uma mesa simples ou bastante completa, dependendo da casa e da ocasião.
E, como acontece com quase todos os hábitos culturais, não existe uma regra que represente todas as famílias chilenas.
Tem gente que toma once diariamente. Tem gente que quase nunca.
Tem casa em que ela substitui a janta e casa em que depois ainda vem outra refeição.
O mais interessante é justamente observar como cada família faz.
Não é só o que se come
Quando um brasileiro conhece a once pela primeira vez, é fácil prestar atenção apenas nos ingredientes.
Depois, você começa a perceber que o mais chileno talvez seja a maneira de sentar à mesa.
É uma pausa no fim do dia.
Às vezes rápida. Às vezes longa.
Às vezes cotidiana. Às vezes um motivo para receber alguém.
E talvez seja justamente por isso que a once seja uma das melhores portas de entrada para entender o Chile pela comida: ela não nasceu para turistas, não precisa de restaurante famoso e não depende de uma ocasião especial.
Ela acontece dentro da vida comum.
Se você quiser levar essa curiosidade para a mesa de um restaurante, veja Onde comer em Santiago: regiões para viver a cidade pela mesa.
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