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Isidora Goyenechea: a mulher que deixou marcas do vinho chileno a uma rua em Paris Foto: Divulgação/internet
Chile por dentro

Isidora Goyenechea: a mulher que deixou marcas do vinho chileno a uma rua em Paris

Empresária, inovadora, figura fundamental de Lota e da história da Cousiño Macul: conheça Isidora Goyenechea e os lugares onde seu legado ainda pode ser encontrado.

Thati Lira 25 de set de 2026 11 min de leitura

Tem histórias que você conhece porque decidiu pesquisá-las.

E tem aquelas que te encontram no meio de uma experiência completamente diferente.

Eu conheci Isidora Goyenechea numa vinícola.

Foi durante um tour na Cousiño Macul, enquanto contavam a história da família por trás de uma das vinícolas mais antigas do Chile. A narrativa era relativamente breve: uma mulher do século XIX, empresária, ligada ao vinho, à mineração, à família Cousiño e a importantes obras sociais.

Só que a história da Isidora ficou comigo.

Quanto mais vou descobrindo, mais me impressiona perceber a dimensão daquela mulher: ela comandou um dos maiores grupos empresariais do Chile, participou da modernização da indústria do vinho, esteve por trás de projetos pioneiros de geração de energia, administrou minas, propriedades e empresas, deixou escolas e hospitais em Lota e ainda vive hoje em parques, palácios, vinhos, ruas e arquivos.

Em Santiago, você pode jantar numa avenida que leva seu nome.

Na Cousiño Macul, pode beber vinhos criados em sua homenagem.

Em Lota, existe um parque chamado Isidora Cousiño.

E em Paris há uma pequena Rue de Lota, no sofisticado 16º arrondissement, lembrando uma cidade mineira chilena a mais de 11 mil quilômetros dali. 

Foi aí que percebi que Isidora não era apenas uma personagem interessante.

Ela era uma porta para entender um pedaço inteiro da história do Chile.

Quem foi Isidora Goyenechea?

Isidora Goyenechea Gallo nasceu em Copiapó, em 2 de janeiro de 1835, segundo o Archivo Histórico de Concepción, embora algumas fontes históricas registrem 1836. Morreu em Paris, em 14 de maio de 1897. Essa divergência de datas aparece inclusive entre instituições patrimoniais chilenas, então prefiro registrá-la.

Era filha de Ramón Ignacio Goyenechea e María de la Luz Gallo. Depois da morte do pai, sua mãe se casou com Matías Cousiño, empresário decisivo no desenvolvimento da mineração de carvão em Lota.

Isidora acabaria se casando em 1855 com Luis Cousiño, filho de Matías. Eles não tinham parentesco sanguíneo.

A família passou a controlar um patrimônio impressionante: mineração de carvão e prata, propriedades agrícolas, transporte marítimo, ferrovias, indústria, imóveis e produção de vinho.

Então aconteceu a virada da história. Luis morreu em 1873, ainda jovem.

E Isidora assumiu a direção dos negócios familiares.

Num século em que mulheres quase nunca apareciam formalmente no comando de grandes empresas, ela passou mais de duas décadas administrando um dos maiores conglomerados econômicos do Chile. 

Ela herdou uma fortuna. Mas essa é apenas metade da história.

É impossível contar Isidora sem dizer que ela pertencia a uma elite extremamente rica.

Mas reduzi-la a “uma viúva que herdou dinheiro” também seria historicamente preguiçoso e injusto.

Depois da morte de Luis, ela tomou decisões de gestão, ampliou investimentos, incorporou tecnologia e continuou diversificando as empresas familiares. Um estudo acadêmico sobre os Cousiño-Goyenechea mostra que Isidora já administrava patrimônio próprio antes de ficar viúva e posteriormente assumiu formalmente o comando do grupo. 

Essa distinção me interessa MUITO.

Herdar poder e saber exercê-lo são histórias diferentes.

E é justamente aí que Isidora começa a escapar da personagem decorativa que seria tão fácil construir.

Cousiño Macul: onde a história começou para mim

Voltemos à vinícola.

A Hacienda Macul foi adquirida por Matías Cousiño em 1856. Depois, Luis Cousiño e Isidora decidiram desenvolver ali um projeto vitivinícola com forte inspiração europeia. A história oficial da vinícola registra a introdução de variedades trazidas da Europa, entre elas Cabernet Sauvignon e Merlot de Pauillac, além de Sauvignon e Riesling. O Riesling teria sido selecionado pessoalmente por Isidora. 

Depois da morte de Luis, ela assumiu também a direção da vinícola.

A Cousiño Macul atribui a Isidora a padronização da produção, melhorias nas condições dos trabalhadores, a supervisão da construção da bodega inaugurada em 1878 e até o redesenho do monograma familiar da empresa. 

O Archivo Histórico de Concepción acrescenta outra camada: durante sua gestão houve esforços de modernização da produção e de fabricação de garrafas de vidro para comercializar o vinho engarrafado. 

E talvez seja justamente por isso que a história dela continua tão presente dentro da Cousiño Macul.

Hoje existem vinhos Isidora Sauvignon Blanc, Sauvignon Gris e Riesling, além do Dama de Plata, criado em sua homenagem. A própria vinícola diz que Isidora era conhecida como Dama de Plata. 

Eu gosto muito disso! Porque significa que ela não está apenas numa placa antiga contando a história da família.

Está dentro das garrafas que continuam saindo da vinícola.

Se você visitar a Cousiño Macul Eu prestaria atenção justamente à parte histórica do tour.

A vinícola continua pertencendo integralmente à família fundadora e atualmente está na sexta geração, com a sétima já participando dos negócios. Cousiño Macul

Para mim, visitar uma vinícola assim não deveria se resumir a “quantos vinhos vou provar?”.

É uma oportunidade de entender por que aquele vinho existe naquele lugar e quem construiu a história que veio antes da taça.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo ali.

A mulher por trás de uma das maiores fortunas do Chile

Um estudo acadêmico sobre a família Cousiño-Goyenechea aponta que ela provavelmente foi a mulher mais rica da história do Chile. Em 1882, a fortuna familiar era estimada em cerca de 14 milhões de pesos da época e aparecia entre as maiores do país. Um viajante norte-americano contemporâneo descreveu Isidora como uma das pessoas mais ricas do mundo. 

Lota: onde dinheiro, indústria e sociedade se encontram

Para realmente entender Isidora, é preciso sair de Santiago.

Lota, na Região do Biobío, foi o coração industrial do patrimônio familiar.

Ali estavam as minas de carvão que ajudaram a impulsionar a fortuna dos Cousiño e tiveram papel importante na industrialização chilena. Arquivo Histórico de Concepción

E aqui a história fica mais complexa, porque não podemos olhar apenas para jardins, palácios e filantropia.

A riqueza da família estava ligada à mineração do carvão, à industrialização e a um sistema social marcado também por duras condições de trabalho e profundas diferenças de classe.

É justamente por isso que acho Lota tão interessante.

O mesmo território permite enxergar a elite industrial e os trabalhadores que sustentavam aquela indústria.

Uma história não cancela a outra. Elas precisam ser lidas juntas.

Parque Isidora Cousiño: um jardim que também conta história

Em Lota está um dos lugares mais diretamente ligados a Isidora.

O Parque Isidora Cousiño, também conhecido como Parque de Lota, começou a ser desenhado entre 1862 e 1872 como presente de Luis Cousiño para a esposa. Depois, Isidora assumiu seu desenvolvimento, contratando inclusive novos profissionais para modificar setores e realizar plantações. Hoje o parque é Monumento Histórico do Chile.

Quando você conhece o contexto, ele deixa de ser apenas um belo jardim e passa a ser parte de uma paisagem criada pela mesma família que dominava a atividade carbonífera da região. É justamente esse contraste que torna o lugar interessante.

Chivilingo: quando Isidora entra na história da energia

Essa talvez seja uma das histórias que mais mostram o tamanho de sua atuação empresarial.

Nos últimos anos de vida, Isidora impulsionou a construção da Central Hidrelétrica de Chivilingo, encomendada em 1896 e inaugurada em 1897 para servir às operações mineradoras de Lota. A energia ajudaria a modernizar o transporte e o funcionamento das minas. 

O projeto colocou Lota na vanguarda tecnológica de sua época.

Não estamos mais falando de uma personagem de salão aristocrático.

Estamos falando de indústria, eletrificação e inovação tecnológica no século XIX.

Essa foi uma das descobertas que mais mudou minha percepção sobre ela.

E ainda houve uma tentativa de trazer salmão para o Chile

Segundo o Archivo Histórico de Concepción, Isidora também promoveu experiências para aclimatar salmões no Chile, utilizando criadouros no rio Chivilingo.  Nem tudo deu origem a uma indústria imediata, claro.

Mas é mais um indício de um comportamento recorrente a trajetória dela: procurar tecnologias e modelos fora do país e tentar adaptá-los ao Chile.

Filantropia, mas com contexto

Isidora também ficou associada a diversas iniciativas sociais em Lota.

Fontes históricas registram investimentos relacionados a escolas, hospitais e condições de vida dos trabalhadores, e seu testamento destinou recursos para duas igrejas, dois hospitais e duas escolas na região de Lota. 

Essa dimensão filantrópica é importante.

Mas eu evitaria transformá-la numa narrativa açucarada de “rica boazinha que cuidava dos pobres”.

A relação entre empresas paternalistas e trabalhadores no século XIX é muito mais complexa do que isso.

Ela realizou obras relevantes.  Ao mesmo tempo, fazia parte da elite proprietária que controlava grande parte da vida econômica da cidade.

As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

História adulta costuma ter esse péssimo hábito de não caber perfeitamente em heróis e vilões.

Palacio Cousiño: Isidora também está escondida no centro de Santiago

Palácio Cousiño
Palácio Cousiño Foto: divulgação/internet

Outra forma de encontrar essa história está em Santiago.

O Palacio Cousiño, na Calle Dieciocho, foi construído no século XIX pelo arquiteto francês Paul Lathoud para a família. Registros patrimoniais indicam que o edifício foi realizado para Isidora depois da morte de Luis e tornou-se uma das grandes residências aristocráticas da capital. 

A decoração trouxe materiais e objetos europeus, e o edifício chegou a contar com recursos tecnológicos extraordinários para a época, incluindo um dos primeiros elevadores do Chile e geração própria de eletricidade. 

Hoje funciona como museu.

Para quem gosta de história, é um lugar que muda completamente a leitura daquela Santiago de finais do século XIX.

E o atual Parque O'Higgins também passa pelos Cousiño

O atual Parque O'Higgins foi durante décadas conhecido como Parque Cousiño.

A família participou da transformação do antigo Campo de Marte num grande parque urbano na segunda metade do século XIX.

Isso significa que você pode atravessar lugares completamente diferentes de Santiago sem perceber que está passando, repetidamente, pela história da mesma família.

É quando o mapa começa a ganhar profundidade.

E Paris? Aqui está a história correta.

Eu também conhecia a história de que Isidora teria uma rua em Paris. Fui atrás.

E a versão mais precisa é ainda melhor.

No 16º arrondissement de Paris existe a Rue de Lota, criada em 1894 e batizada em referência à cidade mineradora chilena. A rua continua oficialmente registrada pela Prefeitura de Paris. 

Foto: Divulgação/internet

Um estudo acadêmico sobre a família registra que Isidora e seus filhos viveram durante períodos numa residência particular na esquina da Rue de Lota com a Rue de Longchamp. 

Documentação histórica sobre a rua também relaciona suas primeiras construções à família Cousiño e à cidade chilena de Lota. 

Portanto:

Paris não tem uma Rue Isidora Goyenechea.

Tem algo talvez ainda mais simbólico:

uma Rue de Lota.

Uma pequena rua parisiense carregando o nome daquela cidade mineradora chilena que sustentou parte enorme da fortuna, dos projetos e da história da família.

Essa conexão Chile-Paris é exatamente o detalhe que faz uma biografia ganhar geografia.

Cinco lugares onde você pode encontrar Isidora hoje

Se eu transformasse esta história numa pequena rota, faria assim:

1. Cousiño Macul, Santiago

Onde eu conheci sua história e onde ela continua presente na narrativa familiar, na bodega e nos vinhos que levam seu nome. Cousiño Macul

2. Avenida Isidora Goyenechea, Las Condes

Hoje um dos grandes eixos gastronômicos de El Golf.

A Santiago financeira do século XXI carregando o nome de uma empresária do século XIX tem uma ironia histórica bastante bonita. Wikipedia

3. Museo Palacio Cousiño, Santiago

Para entender o universo material, social e cultural da elite chilena da qual ela fazia parte. Registro Museos Chile

4. Parque Isidora Cousiño e circuito patrimonial de Lota

Aqui você entra no território que realmente explica de onde vinha grande parte daquele poder econômico. Monumentos

5. Rue de Lota, Paris

Não é exatamente um ponto turístico sobre Isidora, mas talvez seja o epílogo geográfico mais improvável dessa história.

E talvez seja por isso que eu goste tanto dela

Não é simplesmente porque Isidora foi rica.

Nem porque foi uma mulher ocupando um lugar que poucas mulheres ocupavam naquele século.

O que me prende é a dimensão da personagem.

Vinho, minas, eletricidade, navegação, propriedades, experimentos agrícolas, obras sociais, Santiago, Lota, Paris.

Quanto mais você abre uma porta, mais aparece outra.

E talvez por isso o tour da Cousiño Macul tenha ficado na minha memória.

Eu entrei na vinícola esperando conhecer vinho.

Saí querendo conhecer uma mulher.

Hoje, quando passo pela Avenida Isidora Goyenechea, o nome não é mais apenas endereço.

Tem Lota atrás, uma bodega, trabalhadores, carvão, eletricidade, Paris.

Tem poder, inovação, privilégio, contradição e legado.

E é justamente por isso que gosto de conhecer o Chile assim.

Porque às vezes uma rua é só uma rua.

Até você descobrir quem está escrito na placa.

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